quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Começar de novo




Um feliz 2010. Alguém poderia descrever o que isto quer dizer?
Enumerar esperanças, expectativas, certezas, aflições, são atitudes que se repetem no fim de cada ano, como se tudo, tudo mesmo, pudesse começar de novo. Mas não pode. Nem tudo pode recomeçar.
Confesso que não fico tão entusiasmado só porque vamos virar a folhinha. Viramos a folhinha, mas nem sempre viramos a página. A mesma vida continua, como se fosse 2005, 2006... porque eu vejo que quase nada mudou, só a data ficou nova. E esta é a motivação de muita gente.
Muitas coisas podem não mudar, mas algumas coisas crescem ao sabor dos anos. Especialmente as sementes que semeamos. Há quem semeie amargura – e uma raiz de amargura, se não for detida, pode se transformar em uma árvore frondosa, que só poderá oferecer frutos amargos. Há quem semeie alegria, na certeza de que será colhida a alegria – se não pelo semeador, por quem foi abençoado por aquela semeadura. Há quem semeie esperança, e sempre vai semear. E há quem semeie sem conhecer suas sementes, porque apenas semeia enquanto vive: esta pessoa é semeadora de vida.
Para quem me julga, apressadamente, acabrunhado, taciturno ou macambúzio (belas palavras antigas...), guardo para o final a razão que vai além de todo o tempo: nem tudo pode recomeçar, mas eu posso começar de novo. Você pode começar de novo. Nós podemos recomeçar. O quê? O que você quiser, quando você quiser. Não precisa ser no primeiro dia do ano – mas certamente vai ser o primeiro dia da mudança. Não precisa ser logo cedo; depois de uma boa refeição, você pode ter novas idéias, uma nova disposição, um novo olhar para coisas velhas, um generoso olhar para coisas difíceis, um olhar de paz para situações insolúveis – que não mudaram, nem vão mudar, ano após ano.
Mas eu posso mudar. E, se for preciso, posso mudar de novo. E de novo. E em outra direção, em outro sentido. Eu posso. Eu posso mudar hoje – mesmo que hoje não seja o primeiro dia do ano novo. E o melhor nisso tudo é que eu sou livre para escolher a mudança, livre para mudar, sempre que eu quiser. Porque, se eu quiser mudar, uma parte enorme do percurso já vai ter sido percorrida: só a vontade de mudar já me põe no meio do caminho.
Amanhã é dia 1º de janeiro, mas eu não vou lhe desejar apenas um feliz 2010. Eu desejo que você possa ver que todo dia é dia de recomeçar, que cada dia de 2010 é dia de ter idéias novas, que cada instante da vida é suficiente para rever conceitos, reformular planos, oferecer novas chances, principalmente a você mesmo.
E que assim você possa construir, ajudado pelas mãos que você vê ao seu lado, e você se lembra delas, e elas de você. Porém, se você só vê ou lembra as próprias mãos, então comece por procurar mãos alheias, para também serem suas.
Comece de novo, mas não comece sozinho.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

É Natal em mim




Eu nasci de novo: um dia
Eu olhei a cruz vazia
E de repente entendi
Que aquela cruz era minha,
A culpa, o pecado, tudo,
Mas não fui eu que morri.

Ele se entregou por mim,
De uma vez pagou o preço
E nada mais é preciso.
Livrou-me do meu pecado,
Me deu vida para sempre,
Garantiu a minha paz,
Resgatou o meu sorriso,
Nas trevas me trouxe luz
O Filho de Deus, Jesus.

..........................

É Natal em mim
desde o dia em que eu conheci
a Cristo Jesus,
meu Senhor, meu Salvador.
Ele me chamou
e eu disse sim à Sua voz,
e vou andar com Ele
aonde Ele for.

Sei que não é fácil segui-lo, eu sei
Os espinhos sempre terei,
Mas seja qual for o temor,
O tamanho, o gosto da dor,
Sempre saberei que é Natal em mim.

É Natal em mim
desde o dia em que eu conheci
a Cristo Jesus,
meu Senhor, meu Salvador.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Natal não vai passar




O Natal não vai passar, não vamos esquecer
Cada gesto, cada olhar, o dar e o receber
A esperança, a doce paz, o amor que faz viver.
Cada dia, cada instante é Natal.

Todo dia é Natal quando se tem Jesus.
Seu amor é tão real que eu posso provar
Paz em meio ao temor, alívio na dor,
Alegria e amor que vem de Deus.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Música e a criança

Deus criou todas as coisas para o louvor da Sua glória. A música foi criada por Deus. Antes da fundação do mundo, os anjos o louvavam; no nascimento de Jesus, anjos cantaram glória a Deus nas alturas. Somos criaturas de Deus para glorificar o seu nome.
A música pode trazer paz e alegria a um coração aflito. Músicas bem preparadas podem transmitir ânimo aos desanimados, alívio aos cansados.
Crianças que ainda não compreendem muito as coisas são sensíveis à música como um agente que mexe com sua atenção e emoções. Podemos nos lembrar mais facilmente de uma música aprendida na infância do que de palavras ditas em meio a uma pregação. Músicas aprendidas pela criança a ajudam a formar uma memória emocional com boas lembranças de sensações agradáveis. Se considerarmos, então, a música como agente espiritual, teremos a certeza da ação do Espírito Santo em meio às canções ouvidas e aprendidas.
Muitas coisas que são semeadas na vida de uma criança só mostrarão seus frutos bem mais adiante. E quando a pessoa, anos mais tarde, quiser trazer à memória o que lhe pode dar esperança, poderá encontrar, entre suas lembranças, as músicas tão simples e verdadeiras que falaram ao seu coração de criança.

sábado, 21 de novembro de 2009

Sete flores



Floral

Cada pétala espera
O silêncio amanhecer.
Gota de orvalho, me diz:
Onde está meu bem-querer?





Noturna

A flor da noite me disse
Que a gota de orvalho vem,
Que o luar não adormece,
E a noite vela também.




Volta

A flor que o vento leva
Vai tão longe do jardim...
As ondas do tempo trazem
A flor de volta pra mim.





Silêncio

Eu vi no fundo do tempo
A flor que o vento buscou.
A noite guarda o silêncio,
Meu coração guarda a flor.





Outono

Folhas do meu outono
Têm gosto de solidão,
Têm um quê de abandono,
Amor deixado no chão.




Jardins

Andei por tantos jardins,
Veredas de tantas cores,
Que já não sei mais a cor
Da rosa dos meus amores.





Desenho

Eu desenhei o teu nome
Como se ele fosse a flor
Que nasceu só no caminho
Onde passou o meu amor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A igreja tem que morrer

“E ele morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (1 Coríntios 5:15).

A palavra de Deus nos exorta a discernir o corpo (1 Cor. 11:29). A igreja é o corpo de Cristo. É preciso que ela saiba discernir a si mesma como corpo de Cristo.
Como o apóstolo Paulo nos exorta, devemos pregar a Cristo, e este crucificado (Romanos 1:23). O intento do apóstolo não é nos estimular a uma repetição do sacrifício consumado, pois Cristo morreu uma vez só, levando sobre si os nossos pecados. Mas ele enfatiza a obra da cruz como o centro da pregação do Evangelho.
Paulo fez várias afirmações em suas epístolas a respeito da operação da morte e da vida: “estou crucificado com Cristo; já não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim, e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus” (Gal. 2:20); “de sorte que em nós opera a morte, mas, em vós, a vida” (2 Cor. 4;12); “dia após dia morro” (1 Cor. 15:31). Será isto exclusividade do apóstolo Paulo? Não foi ele usado por Deus para despertar a igreja para morrer para o mundo?
Lutamos contra a carne, contra o nosso inimigo e contra o mundo. Como cristãos, reconhecemos a necessidade de um viver santo – separado para Deus – e não voltado para as coisas deste mundo, pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2:15), e “a amizade do mundo é inimizade com Deus” (Tiago 4:4). Conseguimos enxergar isto no plano pessoal, individual – mas isto, infelizmente, não acontece com a igreja.
Cristo Jesus disse que, quando Ele fosse levantado, iria atrair todos a si mesmo (João 12:32). Na cruz, sim, mas não após a Sua morte, mas quando fosse levantado no madeiro – pronto para morrer e consumar a redenção. Seu sacrifício redentor se deu na plenitude dos tempos, no tempo exato do plano de Deus.
A palavra de Deus é cristocêntrica – aponta para a promessa, para a vinda e para o sacrifício e a ressurreição de Jesus, e anuncia a Sua volta. Sabemos que tudo convergiu para Cristo na cruz – e hoje a Sua morte continua sendo tanto o ponto final da condenação pelo pecado como o ponto de partida para a vida nova em Deus. O corpo de Cristo foi crucificado para que Ele levasse sobre si o pecado, morrendo em lugar dos pecadores. Paulo olha para a cruz e diz que precisa se conformar com a Sua morte, para de algum modo alcançar a ressurreição (Fil. 3:10, 11).Seria isto uma atitude mórbida da parte dele – procurar conhecer o poder da morte – ou um perfeito discernimento do corpo de Cristo?

Hoje celebramos a salvação e ouvimos alguns dizerem que devemos olhar para a cruz não como uma morte, mas como a nossa esperança. Mas não podemos fazer isto, pelo menos por dois motivos: o mais evidente é que a cruz é o lugar da morte sim, porque não há como olhar para a cruz e não se lembrar da morte de Cristo, mas Ele ressuscitou, e nos alegramos com a Sua ressurreição ao lembrar que a cruz está vazia, e que Ele não permaneceu na morte. O outro motivo é que a cruz não pode ser a nossa esperança porque ela é o sinal da própria concretização da esperança – a promessa se cumpriu: o Salvador veio, morreu na cruz, e está consumado.
A igreja não deixa de olhar para a cruz, mas não vê nela o que precisa ver. Olhamos para o sacrifício de Jesus como sofrido em nosso lugar: o preço foi pago e nada mais há a fazer para a salvação – e isto é verdade. Mas a cruz de Cristo não é só dele, é nossa também. “Fomos sepultados na sua morte pelo batismo” (Rom. 6:4) - o que simboliza o nosso comprometimento com o morrer para o mundo e viver para Cristo, como um novo homem.
Muitos de nós podem ver a si mesmos como crucificados com Cristo, reconhecendo que é necessário e urgente passar pela cruz para se conformar com a Sua morte, Para ressuscitarmos com Cristo, precisamos morrer, e morrer para o mundo. No entanto, enquanto alguns conseguem contemplar a cruz de Cristo como lugar da sua própria morte, atraídos por Cristo Jesus à Sua cruz, a igreja olha para a cruz e não consegue discernir na cruz a si mesma como o corpo de Cristo que morreu – porque, como foi Cristo quem morreu, e isto é suficiente, a igreja não precisa mais morrer. Mas isto é loucura na pregação, e não a loucura da pregação que salva. Podemos ver hoje a igreja como é descrita em Efésios 1:23?
Hoje corremos o risco de celebrar a ressurreição de um corpo – a igreja – que não morreu. A igreja diz ter vida em Cristo, mas ama as coisas deste mundo. Ou será que morrer para o mundo e viver em Cristo é privilégio de alguns? Fomos chamados para fora para ainda escolhermos se vamos viver em Cristo ou não? A igreja hoje proclama e promete o céu, mas retém o seu tesouro e o seu coração no mundo.
É urgente que a igreja olhe para a cruz e veja a si mesma crucificada com Cristo. Que ressurreição a igreja pode querer provar, se não reconhece a si mesma como morta para o pecado?
Fala-se muito nestes tempos de unidade na diversidade, unidade nas realizações, unidade no propósito comum de propagar o Evangelho. Há vários tipos de unidade sendo propostos à igreja e pelas igrejas hoje – afinal, é preciso que sejamos um para que o mundo creia (João 17:21). A igreja também reconhece que precisamos ser um em Cristo - e então isto parece suficiente, mas não é.
Nenhum destes planos aponta para a unidade da igreja na cruz. Jesus nos atraiu a Si mesmo como igreja que somos, como um só corpo, crucificado com Cristo, que precisa morrer para este mundo, deixar de viver para si mesma e viver em unidade para Aquele que por ela morreu e ressuscitou.
“Igreja, nega-te a ti mesma, toma a tua cruz e segue-me”. Somos capazes de negarmos a nós mesmos, tomarmos nossa cruz e seguirmos a Jesus individualmente, mas é difícil não ver que a igreja não se une para seguir a Cristo, está longe de conhecer a sua cruz e cada vez mais reafirma a si mesma como instituição que anda e vive neste mundo como se fosse dele. Está solidamente arraigada no mundo, e dele recebe a seiva para produzir frutos que chamem a atenção de todos para si mesma, e não para Deus.
O Israel de Deus tornou-se a vide luxuriante que segue sem pudor os seus amantes. Mamom é apenas um deles. Cada um de seus ramos constrói palácios – alguns são de luxo, outros de conhecimento, outros de poder – mas a glória não é de Deus: a glória é dada ao homem na pessoa da igreja.
Será ainda preciso chamar isso de prostituição? Porventura foi Cristo Jesus crucificado para que tivéssemos glória como Sua igreja? Há algo muito sério fora do lugar. Não consigo ver a igreja como participante da glória de Cristo, como se nela mesma houvesse glória, a não ser por dois motivos: os salvos terão corpos revestidos de glória, o que é mortal se revestirá da imortalidade e a igreja será o corpo de Cristo glorificado nos céus. O outro motivo é que já somos, e seremos tão pequenos diante da Sua glória, que dela participaremos como um salvo e bem-aventurado nada.
Se a vida da igreja está em Cristo Jesus, ela precisa passar pela cruz. Se a vida da igreja está em Cristo, é preciso que ela ande nele. A esperança da igreja é que somos semeados em fraqueza, mas ressuscitaremos em poder (1 Cor. 15:43).
A igreja não será vivificada se primeiro não morrer (1 Cor. 15:36). O grão morre como grão, e só terá novo corpo quando, após semeado, nascer de novo (1 Cor. 15:37). Ou a igreja morre para si mesma e para o pecado, e assume o seu lugar na cruz como corpo de Cristo, ou estará longe de se conformar com os Seus sofrimentos – o que não foi entregue somente a Paulo, mas a toda a igreja. Se alguém quer ter vida em Cristo, é preciso passar pela Sua morte – e a igreja não pode fugir disto.
Será que é somente a missionários que cabe como lema “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”? No reino de Deus, a ordem das coisas é muito peculiar. Neste mundo é preciso estar vivo para se poder morrer, mas para nós, que não somos deste mundo, é preciso morrer para se ter vida.
Enquanto a igreja julgar que tem vida em si mesma, e se considerar a detentora – e não a servidora – dos propósitos de Cristo, continuará enganando a si mesma, servindo ao mundo e ensinando que a cruz é apenas um bonito símbolo da nossa fé.
Se a igreja achar a sua vida perdê-la-á; se a igreja perder a sua vida por causa de Jesus Cristo, achá-la-á. Encontrará a verdadeira vida em Cristo, e por fim a vida eterna.

(do livro 'Penso, logo escrevo', de crônicas evangélicas)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Coração de criança




Quando o coração é de criança,
toda roda viva é carrossel,
todo carrossel é colorido,
toda cor tem vida, tom, sentido.

Não importa o que eu quis dizer,
mas o que teu coração sentiu
ao mirar o esboço desta tela
que eu insisti em colorir.

Cada traço vai tocar mais fundo
a alma de quem procura e sonha
um lugar de paz, onde descansa:

toda cor tem vida, tom, sentido,
todo carrossel é colorido,
quando o coração é de criança.

Imagem: Casa nordestina, da Fundação Gol de Letra)

Uma profissão




Oh, queridos mestres, nem sempre o sentido das palavras consegue expressar as palavras dos sentidos, o que pulsa sem falar mas expressa mais que tudo que se quer dizer.
E, quando expressa, professa, claramente, e com veemência, o que é profundo e emerge, solene e incontida, como uma mensagem tão serena e tão marcante.
É preciso aprender a aprender. Um fala, o outro escuta, ambos pensam e interagem, num processo além do conhecimento que deságua na comunhão do que é compartilhado. E, ao compartilhar palavras e atitudes, não importa mais quem é o professor – ambos professam a comunhão do novo. Aprendendo a aprender, aprendem a ensinar um ao outro, e a declarar sem palavras que a semente da comunhão germinou e vai produzir seu fruto. Professor não apenas ensina, mas traz com ele aqueles que professam o que conheceram juntos.
Dizem que um profeta prediz o futuro – ele professa o que há de vir. Mas, se aquele que profetiza é aquele que exorta, consola e edifica, como está escrito em 1 Coríntios 14:3, é difícil imaginar alguém que exorta sem partilhar o dia a dia; alguém que consola sem se aproximar e conviver com o aflito; alguém que edifica sem tocar com as mãos o que é edificado.
E assim percebemos que profetizar não é apenas predizer, mas construir o futuro. Construir um futuro com as mãos cheias de trabalho, rodeado de gente que professa – declara publicamente o seu compromisso – o desejo de ajudar a construir um futuro que não é só de um, mas de todos.
Professor, profissão: profeta.

sábado, 3 de outubro de 2009

Por que temes?



Tela: Night - after Millet, de Van Gogh


Por que temes o mal? Ele é inevitável.
Desprezas o bem que bate á tua porta,
Espantas o amor que, paciente, espera
Que então atendas a uma só palavra.

Por que temes o bem? Achas insustentável
Que a paz não te deixe nem por um momento?
Amas a tua dor, desejas sofrimento,
Buscas o tormento e assim te julgas bom.

Não temes o flagelo das horas perdidas,
Todas as mentiras que animam teu medo.
Guardas teus segredos como vãos tesouros,
Escórias do ouro, tolo proceder.
Quem és tu que temes a própria verdade,
Expulsa dos teus dias tão em esperança?
Quem te fez escravo desta insanidade,
Qual merecedor dos males deste mundo?

Não será a dor o que te justifica,
Não será o medo o que tanto te humilha,
Nem a solidão a razão do teu pranto,
Nem obsessão a tua armadilha.
Tu mesmo armaste a rede aos teus passos,
Pássaro cruel que mutilou tuas asas
Para não poderes voar até os montes
De onde se vislumbra tão de perto o céu.

O céu que rejeitas jamais te feriu,
E as nuvens que vês são para o teu deleite,
Mas em tua loucura não crês que te aceite
O Senhor que te criou e te deu vida.
Não contemples mais a tua vã ferida,
Recebe o bálsamo, está á tua mão.
Ele te estende a destra e o auxílio,
Com amor te chama, e com compaixão.

Temerás também Sua misericórdia?
Te esconderás na tua vaidade?
Ou enfim darás a chance à verdade
De te transformares de algoz em redimido?

Espero que não temas te veres perdido,
Porque, afinal, por Deus tu foste achado,
Fraco, desprezado, inútil, oprimido,
Um trapo de gente, alguém sem serventia.


Mas quem O conhece como Deus de amor
Enfim se percebe que nasce de novo,
Que não mais importa tudo que passou,
Que é envolvente a paz que te domina.
Temerás então deixar Sua palavra,
Te recolherás aos braços do Pastor,
E esquecerás que um dia foste nada,
E hoje és para sempre alvo do Seu amor.

domingo, 27 de setembro de 2009

Selva e mar – Rios de Janeiro




Molhei os pés no mar de Ipanema
e por segundos me senti sorvete,
até voltar ao sol que incendeia,
a onda vai e eu sumo na areia.

Percorro os passos da praia do tempo
e, tão distante, tento recordar
a voz do mar, a luz do céu nas águas
do entardecer da Pedra do Arpoador.

Andava livre, descalço, sem medo,
e ao mesmo tempo via o Rio e o mal:
de um lado as ondas vêm e vão, e eu sonho,
do outro, aquela selva é tão real...

Todas as cores do mar são castelos
que a areia insiste em me lembrar,
enquanto as pedras, implacáveis, dizem
que só em sonhos posso ver o mar.

Valsa do poente




Luzes desse mar do fim do entardecer,
o fogo assim desenha a noite que vai ser
o manto negro azul, distante, e as sombras vêm
descolorir além, nuvens encastelar.

E o Autor brande o pincel,
empunha a cor do céu, rascunha o esplendor
e rasga, qual punhal, recortes de cetim,
rajadas de amor, e vem fazer de mim

grão de areia, encantado, coração calado de tanto prazer
sem merecer a paz que tenta me envolver,
e nas brumas do tempo nem sei mais sonhar.

Sei que não vou despertar, meus olhos negam crer,
Meu coração contempla o gosto de entrever
As mãos do Deus Criador fazendo anoitecer.


(do livro Do mar e do poente)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cume do monte




Quem alcançou o cume desse monte
não olha mais o seu árduo caminho,
mas logo vê a linha do horizonte,
contempla o passo rumo ao infinito.

Um brado ao vento, ou lágrima contida,
são poucos gestos, palavras sem voz
que se derramam nesse fim de tarde
em que o silêncio é terno companheiro.

E enquanto acende a chama da fogueira,
acende o lume das lembranças tantas
que o coração insiste em recordar.

Quem alcançou o cume desse monte
toma e tece a linha do horizonte,
faz sua tela à sombra do luar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ainda há um preço a pagar?




Há uma vida nova a ser vivida. Não só provada, experimentada, mas vivida em plenitude.
Quando Jesus nos diz que veio para nos dar vida, e vida em abundância, Ele não exclui nenhum dos filhos de Deus. Lembra que do interior de quem nEle crê fluirão rios de água viva? Creia apenas, e os rios fluirão; busque ao Senhor, e a sua alma viverá.
Nada pode nos separar do Seu grande amor. Ele deseja que andemos nEle, como ramos unidos à videira, que dão muito fruto.
Há ainda uma cruz: cada um de nós, se quer ir após Cristo, deve dia a dia negar a si mesmo, tomar a própria cruz e segui-lo. O escritor de Hebreus diz que ainda resta um sacrifício, o sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam o Seu nome.
Viver a nova vida em Cristo implica renúncia, entrega, domínio próprio, zelo, cuidado, fidelidade, obediência, fé, amor, esperança, e mais uma série de atitudes cristãs. Porém, na palavra de Deus nada encontraremos a respeito de um preço ainda a pagar.
O sacrifício na cruz significa que o escrito de dívida que havia contra nós foi completamente riscado, anulado, totalmente pago. Não houve desconto nenhum, nem barganha, nem negociação, porque o preço foi pago por Deus a Ele mesmo – e nisto o homem só veio a tomar parte como o beneficiário do Seu perdão pela graça.
Jesus nos disse que ainda há uma cruz, mas o nosso fardo é leve, e o Seu jugo é suave. Onde estaria, então, o preço a pagar? Não foi o sangue de Jesus que pagou todo o preço? Se o homem não foi nem nunca será capaz de providenciar a própria salvação, como poderá ainda pagar um preço que está além do sangue do Cordeiro? Só pode haver uma explicação que não manche com o nome de heresia o esforço e a boa vontade de irmãos consagrados ao Senhor: é que o que hoje a igreja gosta de chamar de preço a pagar definitivamente não é preço para Deus.
Preço para Deus é o sangue de Cristo. Qualquer tentativa de alcançar o que o preço pago na cruz significa para Deus será em vão. Sabemos, sim, qual foi o preço pago pelos nossos pecados lá na cruz, mas só Quem o recebeu realmente conhece o valor do sangue derramado, que não cabe em nenhuma medida humana – nem o valor do sangue, nem o tamanho da paz em Deus, nem a infinitude do Seu amor, pois cada uma destas bênçãos excede o nosso entendimento.
O que o homem chama de preço não é preço para Deus. Mas podemos ir além: por que, hoje, a igreja chama de preço a pagar o que é devido ao Senhor pelos Seus filhos redimidos na cruz?
Fomos salvos na cruz, e o preço foi totalmente pago. Ele ressuscitou para nos dar vida nEle. Temos o Seu perdão, ele caminha conosco e não nos deixará. Somos transformados de glória em glória. Morremos para o pecado e vivemos para Cristo Jesus, não para nós mesmos. Ele nos dá paz não como o mundo dá, vida em abundância, nos livra de todas as tribulações, nos conduz em triunfo, somos guiados pelo Seu Espírito e podemos nos assentar em lugares celestiais.
Seria isto tudo mera fantasia? Não, claro que não, porque verdadeiramente nos gloriamos em Deus. Sabemos que a Sua graça nos basta e que o Seu poder se aperfeiçoa na nossa fraqueza. Conhecemos e cremos no amor que Ele tem por nós. Então, se assim é, onde está o preço? Ainda resta um preço a pagar?
Se olharmos do ponto de vista do céu, não há mais preço algum. Está consumado, e foi selado por Deus. Mas, do ponto de vista do homem, ainda que este creia, fazer a vontade de Deus em entrega e submissão completa precisa ser chamado de preço e sacrifício – porque o apego à carne e ao mundo ainda é tão forte que o homem não consegue negar que precisa se esforçar, e muito, para se render a Ele.
Do ponto de vista do homem, primeiro vem o esforço, o preço, o sacrifício – e então pela fé somos aceitos por Deus. Mas para Deus, segundo a Sua palavra, parece ser bem diferente: pela graça somos salvos, mediante a fé, que é dom de Deus, e a fé é dirigida a Cristo como nosso suficiente Deus, Senhor e Salvador.
Onde está o preço, a não ser na cruz? Resta algum sacrifício remidor, ou justificador do homem diante de Deus, além do sacrifício na cruz?
Chamar de preço a nova vida em Cristo sugere que Deus se satisfez com o sangue de Cristo na cruz, mas o homem não. Deus, o Salvador, não precisa de mais nada para nos declarar salvos, mas o homem que ainda crê no preço a pagar exige de si mesmo atos de justiça além do ato soberano e divino da salvação na cruz.
Mas a Sua palavra nos ensina que os nossos atos de justiça são para Ele como trapos de imundícia. E o serão sempre. Não há homem que possa agradar a Deus com a sua própria justiça. Não há preço humano que possa agregar valor ao sangue da cruz.
Há uma vida nova a ser vivida. Não só provada, experimentada, mas vivida em plenitude.

Ainda há um preço a pagar?

Quero ser novo



(Tela de Camille Pissarro)

Quero ser novo. Eu, o velho, quero ser novo. Tenho este direito. Não o de ser, mas o de querer. O direito de desejar o impossível, o direito de almejar o improvável, e o dever de continuar. De continuar desejando...
Não se põe vinho novo em odres velhos. Nestes, cabe bem o vinho velho. O vinho novo rompe as estruturas, desequilibra o estado natural das coisas, das coisas velhas do odre velho.
Sou um odre velho, não posso ser um odre novo. Já se foi o lacre, o rótulo, a tampa, o prazo de validade e o que mais podia restar. É verdade, o vinho novo é melhor. Embora a safra antiga traga sabores e lembranças, como um santo remédio, o vinho novo é a certeza de que a vinha ainda é frutífera, de que ainda há cachos de uvas a provar.
Quero ser novo, mas não posso. O ano novo vem, quero ser novo também. Tive trezentos e sessenta e cinco dias para esquecer completamente cada voto que fiz àquela meia-noite... E o que pode mais desejar um velho odre remendado? Estar no seu lugar, pronto para ouvir e aconselhar odres novos e alegres de tanto vinho novo.
Quero ser novo, mas não devo. O dono da vinha tem um plano, e eu estou dentro deste plano. E o que esse plano determina, a cada novo ano, aconteça o que acontecer, não é que eu seja novo, mas sim que eu seja melhor. E é melhor assim, e sempre será. Porque o meu sonho de ser novo, na verdade, já é velho, mas o plano que diz que eu devo ser melhor não diz que eu tenho de ser melhor sozinho. Pelo contrário, não estou sozinho, e não vou estar. Há outros comigo, no mesmo caminho. Estou nas mãos do meu senhor, o Senhor da vinha. Ele me tomou em suas mãos e cuida de mim.
Não posso ser melhor sozinho, mas posso ser melhor. O vinho que vem de mim traz o gosto da memória compartilhada, repartida, provada e aprovada ao longo de cada ano velho que já veio e já passou.
O odre é velho, o vinho também, mas cada gota que é provada traz a quem o experimenta uma nova certeza: a certeza de que, mesmo marcado pelo tempo, é possível ser melhor. Não melhor do que os outros odres – eu não preciso disso. Mas posso ser melhor do que eu mesmo, e esta parece ser uma boa e nova idéia.
Quero ser melhor. Eu, o velho, quero ser melhor. Tenho este dever. O dever de ser, mesmo sem querer. O dever de atender ao desejo dAquele que faz o impossível, que planeja o improvável, e o direito de continuar: de continuar em Suas mãos.
É o que Ele quer de mim. Vai ser melhor assim.
Vou ser melhor assim.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Insano




Por que falar de mim?
Quero falar de ti, e não consigo,
quero falar contigo, e não te ligo,
tento fugir de mim, e te persigo,
como se só em ti fosse encontrar
o que não vivo mais dentro de mim.
Fora de mim até me desconheço,
e te conheço tanto que bem sei
por que esperas de mim o meu silêncio
enquanto eu me angustio só por mim.
Por que, então, eu buscaria a ti,
se já te sei presente em todo o tempo?
Senão entre as lembranças, junto a mim,
percebo a atenção do teu olhar.
E então desfaço logo a minha cena,
desmancho o palco e as luzes do lamento,
recolho as vozes e a dor do sofrimento,
calo a revolta, e o murmúrio, e a agonia,
paro e espero inerte a tua voz.
Enquanto falo eu, tu dizes nós;
quando escondo o rosto, fazes luz.
Sabes que sou tão teu, mesmo rebelde,
Que o teu silêncio, assim, me mostra mais
Que tu somente esperas o instante
em que me falarás trazendo paz.
E eu, egoísta, que imaginava,
insano, que fosses tu o algoz,
vejo que já não passo de um fulano
que esqueceu do fio o começo,
que perdeu os sentidos e o apreço,
que desdenhou da própria vida o preço,
e que desconheceu o teu amor.
Mas, ainda assim, e mesmo assim, tu voltas:
sem mais qualquer razão, é tu quem buscas
na minha solidão, a companhia,
com tua comunhão, minha alegria,
pois somente de ouvir eu conhecia
que a tua graça é maior que o entendimento,
que o teu consolo é maior que a minha dor,
que eu não preciso mais do meu lamento,
e quero mais e mais do teu amor.
Quero falar de ti, buscar abrigo
na esperança que trouxe o perdão
a este insensível coração
que hoje conheceu Cristo Jesus.

Soneto velho



Tela: Courting couples, de Van Gogh


Quem conhece o silêncio dos gritos contidos,
da dor represada, da angústia sem voz,
sabe o tom da aflição, desprazer, o desgosto,
o receio, o anseio, o imposto cruel.

Quem refaz o silêncio dos gestos sentidos,
da mão recolhida, dos olhos fechados,
conhece as marcas da dor do desdém,
o cansaço, o mormaço, a luz que não vem.

Se provares a paz de quem revê os tempos,
e em cada lembrança encontrares alento,
e em meio ao silêncio provares o mel,

tu verás florescer a canção que o vento
espalha entre as flores feito o sentimento
de quem alcançou o caminho do céu.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Rascunho do amor




Se eu caminhar entre as sombras,
á meia-luz, sobre o tom
das névoas, nuvens, ao vento,
ao relento, em silêncio, eu vou entrever
o disfarce, o destino, o desdém, desespero,
as cantigas que hoje me levam além,
muito além dessas telas que o tempo rabisca
e insiste em provar que amanhã inda é cedo,
e que não vale a pena o rascunho do amor.

É que a cor da esperança esperou o momento
em que se desenhou o esboço e a luz
para fazer nascer, entre traços e sonhos,
o broto da paz da semente da dor,
que caiu, e morreu, fez assim germinar
o espinho e a flor, o desejo de amar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A voz distante




- Rabi, onde assistes? Eu busco a morada
do pão e da paz, do silêncio e das flores.
Não tenho mais rumo, perdi a esperança,
e só resta a lembrança de uma voz distante.

Em meio ao silêncio, a angústia me oprime,
mas a voz distante me faz inda crer
que meu caminhar inda vai ter sentido:
caminho nas trevas, preciso de luz.

- Vem, filho, e crê: os meus olhos te vêem
e se compadecem da tua aflição.
Não temas as trevas, o dia raiou,
a tormenta passou, é manhã de esperança.

Largaste o leme do teu coração!
Ouvias tão longe a voz que te chama...
Colhi tuas lágrimas e o teu clamor:
descansa e confia no teu Salvador.

sábado, 2 de maio de 2009

Feliz assim



Era um dia como qualquer outro,
Mais uma noite ao fim de mais um dia,
E eu, sempre o mesmo, apenas vivia
E preservava o meu lugar comum.

Até que entrei e percebi o templo
Que há muitos anos muito conhecia,
E a mim restou só poder ver à frente
Aquela cruz de madeira tão simples.

E simplesmente estancou o tempo,
Eu não vivia mais o mesmo dia,
Não entendia o que me perturbava,
E então fitava aquela cruz vazia.

E a doce história, há tanto tempo ouvida,
Ganhou sentido como em um segundo
Eu conseguisse ver, além de todos,
O que traz vida plena a este mundo.

Então eu soube que os meus pecados
Pra sempre foram cravados na cruz,
E sobre mim, chorando, tão calado,
A inigualável graça do perdão.

Meu coração deixou todo o passado,
E eu nunca vou poder descrever
A voz do Amigo, doce e tão santa,
Que me dizia que eu posso crer.

Jesus morreu na cruz naquele dia,
E dos pecados, que só eram meus,
Me libertou, e me deu nova vida,
E eu comecei a reparar em Deus.

Ele até hoje me ama e me guarda,
E sei que vai me amar até o fim.
Querido amigo, por favor, não tarda:
Ele te quer fazer feliz assim.


(do livro Além do Vento - Versos e Valsas)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Tratando Deus como Deus




Houve um tempo que Deus, o soberano Senhor de todas as coisas, pela eternidade, separou para ser o tempo da fundação do mundo. Só o Senhor conhece este tempo, em que ponto da eternidade aconteceu a obra da Criação. Como Deus onisciente e todo-poderoso, Deus não têm opções ou alternativas para decidir o quê, como, onde, para quê, por quê ou quando – Ele é absoluto: tem propósitos estabelecidos e desígnios a serem cumpridos.
A sua vontade é impossível de ser frustrada. O Seu conselho é insondável. Sua mente é incompreensível. Ele não recebe conselhos. Não erra, é infalível. Seus caminhos são inescrutáveis, e incomparavelmente mais altos que os nossos, assim como os Seus pensamentos. Seu amor excede todo o entendimento, assim como a Sua paz. Suas misericórdias não têm fim. Sua fidelidade vai além das nuvens. Alguém assim é Único – incomparável, insubstituível, eternamente firme. É o verdadeiro Deus, digno de toda a glória, honra, louvor, majestade, poder e riquezas – mas não é assim que os homens tratam com Ele.
Temos a Palavra de Deus como nossa única regra de fé e prática – embora muitos desejem descaracterizá-la. A palavra de Deus tornou-se para muitos um instrumento de fácil manipulação. Para estes, ela só é palavra de Deus da boca pra fora, porque, nos seus corações, não intentam mais – se antes o desejaram – servir ao Deus vivo, mas servir-se dEle usando a Sua palavra.
Há quem despreze a Sua palavra e O tenha como o “gênio” que permanece no imaginário coletivo para satisfazer as vontades de cada um. Outros o têm como um Deus cruel e distante, que exige fidelidade e pureza e não se aproxima dos homens. Ainda há quem procure encobrir o Deus que se revela, com mistificações e espiritualizações que levam seguidores a veredas mentirosas.
Não é difícil encontrar quem fale de Deus, mas é muito difícil encontrar quem o conhece de verdade. Porque o conhecimento de Deus é vida, e vida eterna (João 17:3). Muitos que hoje falam de Deus não ouvem Deus falar com eles. Usam Sua palavra, mas não a têm como regra de fé e prática. Usam Seu nome para arrebanhar seguidores. Usam Seu louvor para emocionar multidões. Usam a fé nEle para obter vantagens.
Por isso, são inimigos da cruz de Cristo – a cruz os atrapalha, porque mostra que nada mais é necessário, somente crer. São blasfemadores do Seu nome – porque sua atitude de se colocar diante dos homens para falar e fazer em nome dele não glorifica ao Senhor. São usurpadores do que a Ele pertence, porque buscam atrair para si o que é devido somente a ele. Transformam-se em seguidores fiéis do inimigo das nossas almas - que já foi derrotado quando buscou o mesmo propósito – e caminham nas trevas como se estas fossem luz.
O Deus que fala e tudo se faz não sonha: realiza. Sonhar é ansiar por algo que pode-se ou não alcançar. Responda em seu coração: como o Deus onisciente pode ter sonhos, dúvidas, receios, confusão, indecisão, tropeços, fantasias? Tudo isto é próprio do coração do homem, mas não de Deus.
Aos olhos de muitos pode parecer simpático e agradável tentar ver a Deus como um homem, mas Ele, que se fez homem em Jesus Cristo, é o Eu Sou. Ele não se desvestirá da sua glória e da sua majestade para, “politicamente”, cativar os homens com uma imagem mais “moderna”. Porque isso seria mentira.
Porque Jesus Cristo é a imagem exata do Seu ser. Porque nEle reside toda a plenitude. Porque dEle e por ele e para Ele são todas as coisas. Porque ele falou e tudo se fez. Porque...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ele venceu o mundo





Ele venceu o mundo, pois ao pecado não deu lugar.
Ele viveu no mundo, e a seu domínio Ele resistiu.
Abençoou a terra, da água fez vinho e do pranto fé.
Belém foi o Seu berço, mas foi o homem de Nazaré.

Não teve descendência, mas muitos filhos trouxe a Seu Pai.
Viveu com obediência, e da paciência esqueceu jamais.
Abriu mão de Sua glória e assim curava pelo Seu poder.
Todos que a Ele buscavam sempre achavam nele o que receber.

Até que pela morte o Senhor da vida ousou passar,
Vencendo o apelo forte de, sendo Deus, desistir de amar.
Mas o que ele não podia, o que não queria era esconder
O Seu sangue derramado, o Seu corpo marcado de tanto sofrer.

A cruz, antes tão maldita, se tornou em bênção quando Jesus,
Por Sua graça infinita, fez dela o símbolo do Seu perdão.
E hoje o meu coração enfrenta este mundo e pode dizer:
Ele venceu este mundo e ressuscitou,
Eu também vou vencer.


(do livro Tharsei - Tem bom ânimo, de poesias evangélicas)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Coração passo a passo



Quem se prepara para subir um monte já sonhou com o caminho entre as nuvens.

Sobe o mais alto que puderes e contempla o mar e o céu; mas, se o teu coração não foi contigo, não te atrevas a descer sem ele.

Não te enganes: se o teu alvo é sublime, preciosas são as pedras do teu caminho.

Conta as estrelas e verás que o teu céu vai muito além do que o teu coração alcança.

Se estou só, cada passo me leva apenas um pouco adiante; se vais comigo, cada passo é a certeza de partilhar uma esperança.

Se entras pela fresta de uma porta entreaberta, só há duas coisas a esperar: a frustração que desprezas ou a surpresa que procuras. Mas, se bates à porta que desejas, ainda que tarde será aberta, e entrarás a conhecer o que tu buscas.

Se os teus pés sangram com os espinhos da caminhada, vê que o teu coração não te engane – ele, e não os teus olhos, é que necessita do bálsamo que procuras.

Se o teu coração bate apressado, a ponto de a razão do teu coração ir embora, espera o quanto for necessário para que o coração da tua razão recobre as forças.

Nunca duvides de um coração em silêncio: dele podem proceder fontes de vida, ou um simples adeus.

Virar cada página dos teus dias pode ser mais fácil do que tentar reescrever páginas viradas sem rasgar o coração.

O segredo da chuva é semear gotas de sonho nos passos de quem dela não se esconde.

É melhor sofrer por conhecer a dor do que se desculpar pelo amor que não se entrega.

Escolhe caminhos, rejeita propostas, faz planos, sonha com o sucesso, desvia-te das dificuldades e enfrenta os problemas. Sim, tu podes. Só não conseguirás fugir do coração que é só teu.


(do livro de crônicas Penso, logo escrevo)

Soneto da esperança




Quero ser chamado pelo Teu nome,
Quero ser conhecido por Teu amor.
Sou alguém que morreu, e, crucificado,
vivo para seguir-Te, seja onde for.

E então, conhecido por Tuas marcas,
Quero honrar Teus passos nos passos meus.
Sei que não vais deixar-me, e ando seguro,
Certo de que jamais Te direi adeus.

Meu coração se alegra com a lembrança:
não só por um momento, não é fugaz
a esperança de Te ver face a face.

Meu Senhor e meu Rei, exulta a minh´alma
Ao antever a paz, a beleza e a alegria
De assim Te pertencer, doce e eternamente.

Foto: Three Wooden Crosses, de elkipy27

quarta-feira, 25 de março de 2009

Raiz dos tempos



Eu molhei os pés nas águas desse rio
e contemplei o céu, as nuvens, vento e sol,
as folhas que caem, o calor dos ninhos,
frutos que se colhem estendendo as mãos.

E me vi sentado na raiz dos tempos
em que o silêncio é parte da canção.
Passaram torrentes, vi nascerem flores,
contemplei amores, provei a razão.

Mais do que os olhos podem perceber,
o coração ressente e cria a fantasia.
Tudo que se vê só poderia ser
o ensaio do futuro, e o que então seria?

Duvidar dos olhos que re-viram sonhos
é negar, tristonho, que viu se encenar
o calor dos passos da vida, e o compasso
do fruto dos dias que fluem no ar.

Não negues aos olhos a voz do que sentes
para que não tentes esquecer o amor
com que amaste a dor de contemplar poentes
durante este dia em que a vida passou.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Verdade

A verdade não cai do céu.
A verdade não cai de lugar nenhum.
A verdade não cai.

A verdade não sai.
A verdade não sai de lugar nenhum.
A verdade não sai do céu.

A verdade está presente. A verdade está presente em todos os lugares, e por isso não precisa ir a lugar nenhum. A verdade está presente no céu e na terra, em todas as terras, desde todos os tempos e por todos os tempos. A verdade é presente e está firme: não cai.

A verdade não sai. A verdade sequer se levanta: ela não precisa disso. A verdade permanece. A verdade não muda. A realidade pode mudar, mas a verdade permanece inabalável. A verdade não sai do céu, não sai da terra, está em todos os lugares e assim permanecerá.

A verdade não vem de lugar nenhum, ela está presente desde sempre. Não deixa de ser verdade, mesmo quando não prevalece. A verdade não vai embora, ainda que dela façam pouco caso. Ninguém pode mandá-la embora, pois o seu lugar é em todo lugar. A verdade não precisa vir do céu – ela está lá e está aqui.

Um ponto de vista é apenas um ponto de vista. Uma opinião é a expressão do que é visto e compreendido de um certo ponto de vista. Uma opinião pode se comprovar efetivamente verdadeira à luz dos fatos, mas uma opinião será no máximo verdadeira, sem nunca chegar a ser a própria verdade.

Quem reconhece em si mesmo o direito e o dever de ser verdadeiro deverá também se render à evidência de que ser verdadeiro não o torna verdade em si mesmo. Porque, muito além do entendimento de cada um de nós, ela não é inatingível – ao contrário, é revelada, está á vista de quem dela necessita.

Há quem durante toda a vida procure um caminho verdadeiro. Há quem ande todo o seu caminho procurando a vida verdadeira. Há quem julgue tê-lo alcançado – mas, se não encontrou a Jesus como verdadeiro Deus, Salvador e Senhor, e não creu no sacrifício consumado definitivamente na cruz, interrompeu sua busca, escolheu um ponto de vista, e então parou. Pensou ter encontrado o caminho, pensou ter encontrado a vida, mas ainda está longe da verdade.

Porque a verdade é Jesus Cristo. O caminho é Jesus Cristo. A vida é Jesus Cristo. E ninguém alcançará a comunhão com Deus a não ser por meio de Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida.

Ora, mas não é esta a verdade que procuras?

Então, o que procuras?

(do livro A Cruz e a Aliança - Crônicas evangélicas)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quarta-feira

Vem, manhã, clarão do dia,
Colorindo vida, despejando amor.
Máscaras sem cor, sem mágoa,
Recortam as ruas, não sei onde vou.

Mártires, anões, palhaços,
de diversos traços e uma só folia,
vou andando nos seus passos,
tropeço nos passos dessa fantasia.

Cada mão, uma esperança,
E um coração que dança, escondido e só,
Vêm, invadem esse palco –
Amor é confete que ficou no chão.

Vão, chocalham os seus guizos,
Seus risos não mentem, é uma só dor;
Máscaras despedaçadas,
Corações rasgados vão sangrando vida.

Vem, amor, inda que tarde,
Pra fingir que arde e queima essa fogueira;
Somos o resto do sonho,
O resto da mentira desta quarta-feira.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Folha em branco (Pré-texto)

Tela: Study of Romans Parisiens, de Van Gogh)


Folha em branco (Pré-texto)


Vejo a folha em branco como a tela

que o pintor rascunha, e anela

colorir os tons que a luz revela

copiando a obra que Deus fez.

O que olhos d´alma inda contemplam

pulsa feito estrela no infinito,

cala da palavra o próprio grito,

descortina a paz sem entrelinhas.

Mal sabe a alvura do papel

que em breve conterá a chama

e a singeleza de um momento

gravado, sem dor, a mel e fogo,

no fundo do sonho do poeta,

mescla de amor, silêncio e céu.


(do livro Tharsei - Tem bom ânimo)



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Algumas frases soltas



Algumas frases soltas

Nossos versos não são mudos,
choram a poesia
na leveza do chicote.

Quando a saudade e a esperança se misturam,
o amor fala mais alto...

Saber tratar com cuidado o amor que se sente
é fazer poesia sem palavras...

Quanto mais eu tento esquecer a saudade,
mais ela me faz esquecer de tentar...

Dou um passo no escuro e não vejo nada,
Dou um beijo no escuro e não vejo mais nada...

Quem brinca de esconde-esconde com o sonho
vai ser pego em flagrante no cantinho da verdade.

Quem semeia sonhos colhe liberdade. Será?...

(do livro de crônicas Penso, logo escrevo)


Pingo de sol


Pingo de sol

Já bebi pingo de chuva,
Tem gosto de água do mar.
Água fria vem da nuvem,
molha a gente e molha a flor.
Parece que a nuvem chora,
mas por que fica tão triste?
Sem chuva a planta não nasce,
sem chuva ela não existe...
Mas eu vou pedir pra nuvem
esperar só um pouquinho
até o sol aparecer,
e, iluminando tudo,
derramar pingos de sol
pra chuva ter alegria.
Quem sabe assim ela cai
feito chuva colorida...
Vem cair, pingo de sol,
chove chuva, chove vida...

(do livro Coração Não É Brinquedo - poesia infantil)

Imagem: Dia de chuva - foto de Cleiton Seehaber


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ver além


Tela: View at the Sea of Scweningen, de Van Gogh

Ver além

Se eu for só atentar ao que eu sou,
De que me valerá a minha vida?
O que eu posso é muito pouco, eu sei,
E o que eu sei jamais será bastante.

De que me adiantará ser mais que sou,
Se tudo que eu for não será nada?
De que me servirá ter mais poder,
Se tudo que eu puder não tem sentido?

Conhecimento eu posso procurar,
Me esforçar e achar sabedoria,
Mas de que vale tudo conhecer,
Se isso apenas me conduz ao vento?

Sabedoria, posses, ser alguém,
São coisas que se buscam neste mundo,
Mas não é sem razão, e é profundo,
Que elas em si mesmas nada são.

O Deus que tudo fez criou a vida
Para que o sábio se renda aos Seus planos,
Para que o rico encontre vãos tesouros,
E os poderosos mirem seus enganos.

Somente Deus concede entendimento,
E a Deus pertence toda a riqueza,
Em Deus reside a glória e a nobreza,
E tudo isto o homem busca em vão.

Ó homem, volta os olhos para a vida
Que o Senhor dos céus, Deus soberano,
Tão amorosamente descortina
Diante dos incrédulos vencidos.

Ó homem, reconhece ser perdido,
E reconhece em tudo que alcançaste
Os frutos de um árduo trabalho
Que no entanto não vêm do bom Deus.

Se os teus olhos, sim, humildemente,
Oferecerem a esta esperança
A chance de então se fazer bonança
Nos corações que tudo rejeitaram,
O rico beberá da fonte eterna,
O sábio entenderá todo o caminho,
O poderoso dará glórias a Deus
E nenhum deles andará sozinho.

(do livro Tharsei - Tem bom ânimo, poesias evangélicas)





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Convite ao sonho


Tela: Almond Blossom, de Van Gogh

Convite ao sonho - Acróstico

Como quem busca a própria fantasia,
Ofereci ao tempo um desafio:
Não deixes de assim me aceitar,
Vem e revela-te, a cada dia,
Iluminando o salão com sonhos,
Trazendo música ao sabor dos passos,
Eternizando cada melodia.

Ah, se eu pudesse assim adormecer,
Ouvindo o som da valsa dos segredos...


Se foi a ti, ó tempo, a quem fiz
O desafio que não vai ter fim,
Não me desprezes, não me abandones,
Hoje é o dia de buscar as flores,
Ontem foi tempo de verter amores...

Serenata

Tela: Champ de coquelicots, de Monet



Serenata

São tantas rosas revelando amores,
são tantas cores expressando a vida,
que se das flores o jardim soubesse
o tom exato da voz do seu canto,
seria muito, muito mais o amante
de se fazer tão doce, que o recanto
das notas suaves da vã melodia
se transformaria em linda serenata,
e, no encanto das canções dos tempos,
se mudaria, em um só segundo,
em cena viva a tela que passou
como se cada cor não se importasse...
E então renasce de repente a dança,
desenfreada na rosa dos ventos,
enquanto o vento das rosas sussurra
o seu convite para, sem temores,
provar o gosto terno dos cantores
ao exultarem, felizes, as manhãs,
tardes e noites, madrugadas tantas,
que a solidão depressa foi embora.
São tantas cores revelando a vida,
São tantas rosas expressando amores...

Amor Tecer


Tela: Weaver, de Van Gogh


AMOR TECER

Tecer o amor com fios de segredo,
qual tecelão que sonha e devaneia,
é conhecer o som da dor do medo
de a morte ser voraz como uma teia.
Amor tecer sem conhecer a vida,
cedo escondida, até o amor te ser
mais que certeza, é se perder o tempo
em que depressa acontece o amor,
E tece o tempo, o sonho, a vida, tudo,
amor tecendo, ao longo do caminho,
a morte sendo o sentimento mudo
te sendo o amor quem te fez tão sozinho.

(do livro Além do Vento - Versos e Valsas)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

E quem sou eu para fazer poesia?


Imagem: Nuvens - foto de Marcelo Donato



E quem sou eu para fazer poesia?

E quem sou eu para fazer poesia?
Conheço um campo, perto desta estrada.
À sua porta encontro a grande Rocha,
e logo vejo o pasto verdejante.
Eu vejo a Fonte, e o alto da colina
indica cada degrau do caminho,
até que lá, do alto, vejo nuvens,
escuto o céu, silêncio reverente.

Cruzei depressa jardins e recantos
e agora só contemplo o tempo, inerte,
que me conduz a vislumbrar mais cedo
o que o Mestre já anunciou.
O Autor da Vida me fez testemunha
de tanto amor, de tantas maravilhas,
que eu de mim me esqueço, tão sereno,
tão longe estão o mundo e suas ilhas.

Ele é Perfeito, e enche de alegria
o coração que aceita acompanhar
os Seus caminhos plenos de poesia,
e prova e vê, conhece e sente, e sonha.
Eu não escrevo, eu derramo versos
No rio terno das canções do dia.
É a poesia quem me fez poeta.
E quem sou eu para fazer poesia?


(do livro Além do Vento - Versos e Valsas)