quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Serenata

Tela: Champ de coquelicots, de Monet



Serenata

São tantas rosas revelando amores,
são tantas cores expressando a vida,
que se das flores o jardim soubesse
o tom exato da voz do seu canto,
seria muito, muito mais o amante
de se fazer tão doce, que o recanto
das notas suaves da vã melodia
se transformaria em linda serenata,
e, no encanto das canções dos tempos,
se mudaria, em um só segundo,
em cena viva a tela que passou
como se cada cor não se importasse...
E então renasce de repente a dança,
desenfreada na rosa dos ventos,
enquanto o vento das rosas sussurra
o seu convite para, sem temores,
provar o gosto terno dos cantores
ao exultarem, felizes, as manhãs,
tardes e noites, madrugadas tantas,
que a solidão depressa foi embora.
São tantas cores revelando a vida,
São tantas rosas expressando amores...

Amor Tecer


Tela: Weaver, de Van Gogh


AMOR TECER

Tecer o amor com fios de segredo,
qual tecelão que sonha e devaneia,
é conhecer o som da dor do medo
de a morte ser voraz como uma teia.
Amor tecer sem conhecer a vida,
cedo escondida, até o amor te ser
mais que certeza, é se perder o tempo
em que depressa acontece o amor,
E tece o tempo, o sonho, a vida, tudo,
amor tecendo, ao longo do caminho,
a morte sendo o sentimento mudo
te sendo o amor quem te fez tão sozinho.

(do livro Além do Vento - Versos e Valsas)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

E quem sou eu para fazer poesia?


Imagem: Nuvens - foto de Marcelo Donato



E quem sou eu para fazer poesia?

E quem sou eu para fazer poesia?
Conheço um campo, perto desta estrada.
À sua porta encontro a grande Rocha,
e logo vejo o pasto verdejante.
Eu vejo a Fonte, e o alto da colina
indica cada degrau do caminho,
até que lá, do alto, vejo nuvens,
escuto o céu, silêncio reverente.

Cruzei depressa jardins e recantos
e agora só contemplo o tempo, inerte,
que me conduz a vislumbrar mais cedo
o que o Mestre já anunciou.
O Autor da Vida me fez testemunha
de tanto amor, de tantas maravilhas,
que eu de mim me esqueço, tão sereno,
tão longe estão o mundo e suas ilhas.

Ele é Perfeito, e enche de alegria
o coração que aceita acompanhar
os Seus caminhos plenos de poesia,
e prova e vê, conhece e sente, e sonha.
Eu não escrevo, eu derramo versos
No rio terno das canções do dia.
É a poesia quem me fez poeta.
E quem sou eu para fazer poesia?


(do livro Além do Vento - Versos e Valsas)