segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Coração de criança




Quando o coração é de criança,
toda roda viva é carrossel,
todo carrossel é colorido,
toda cor tem vida, tom, sentido.

Não importa o que eu quis dizer,
mas o que teu coração sentiu
ao mirar o esboço desta tela
que eu insisti em colorir.

Cada traço vai tocar mais fundo
a alma de quem procura e sonha
um lugar de paz, onde descansa:

toda cor tem vida, tom, sentido,
todo carrossel é colorido,
quando o coração é de criança.

Imagem: Casa nordestina, da Fundação Gol de Letra)

Uma profissão




Oh, queridos mestres, nem sempre o sentido das palavras consegue expressar as palavras dos sentidos, o que pulsa sem falar mas expressa mais que tudo que se quer dizer.
E, quando expressa, professa, claramente, e com veemência, o que é profundo e emerge, solene e incontida, como uma mensagem tão serena e tão marcante.
É preciso aprender a aprender. Um fala, o outro escuta, ambos pensam e interagem, num processo além do conhecimento que deságua na comunhão do que é compartilhado. E, ao compartilhar palavras e atitudes, não importa mais quem é o professor – ambos professam a comunhão do novo. Aprendendo a aprender, aprendem a ensinar um ao outro, e a declarar sem palavras que a semente da comunhão germinou e vai produzir seu fruto. Professor não apenas ensina, mas traz com ele aqueles que professam o que conheceram juntos.
Dizem que um profeta prediz o futuro – ele professa o que há de vir. Mas, se aquele que profetiza é aquele que exorta, consola e edifica, como está escrito em 1 Coríntios 14:3, é difícil imaginar alguém que exorta sem partilhar o dia a dia; alguém que consola sem se aproximar e conviver com o aflito; alguém que edifica sem tocar com as mãos o que é edificado.
E assim percebemos que profetizar não é apenas predizer, mas construir o futuro. Construir um futuro com as mãos cheias de trabalho, rodeado de gente que professa – declara publicamente o seu compromisso – o desejo de ajudar a construir um futuro que não é só de um, mas de todos.
Professor, profissão: profeta.

sábado, 3 de outubro de 2009

Por que temes?



Tela: Night - after Millet, de Van Gogh


Por que temes o mal? Ele é inevitável.
Desprezas o bem que bate á tua porta,
Espantas o amor que, paciente, espera
Que então atendas a uma só palavra.

Por que temes o bem? Achas insustentável
Que a paz não te deixe nem por um momento?
Amas a tua dor, desejas sofrimento,
Buscas o tormento e assim te julgas bom.

Não temes o flagelo das horas perdidas,
Todas as mentiras que animam teu medo.
Guardas teus segredos como vãos tesouros,
Escórias do ouro, tolo proceder.
Quem és tu que temes a própria verdade,
Expulsa dos teus dias tão em esperança?
Quem te fez escravo desta insanidade,
Qual merecedor dos males deste mundo?

Não será a dor o que te justifica,
Não será o medo o que tanto te humilha,
Nem a solidão a razão do teu pranto,
Nem obsessão a tua armadilha.
Tu mesmo armaste a rede aos teus passos,
Pássaro cruel que mutilou tuas asas
Para não poderes voar até os montes
De onde se vislumbra tão de perto o céu.

O céu que rejeitas jamais te feriu,
E as nuvens que vês são para o teu deleite,
Mas em tua loucura não crês que te aceite
O Senhor que te criou e te deu vida.
Não contemples mais a tua vã ferida,
Recebe o bálsamo, está á tua mão.
Ele te estende a destra e o auxílio,
Com amor te chama, e com compaixão.

Temerás também Sua misericórdia?
Te esconderás na tua vaidade?
Ou enfim darás a chance à verdade
De te transformares de algoz em redimido?

Espero que não temas te veres perdido,
Porque, afinal, por Deus tu foste achado,
Fraco, desprezado, inútil, oprimido,
Um trapo de gente, alguém sem serventia.


Mas quem O conhece como Deus de amor
Enfim se percebe que nasce de novo,
Que não mais importa tudo que passou,
Que é envolvente a paz que te domina.
Temerás então deixar Sua palavra,
Te recolherás aos braços do Pastor,
E esquecerás que um dia foste nada,
E hoje és para sempre alvo do Seu amor.

domingo, 27 de setembro de 2009

Selva e mar – Rios de Janeiro




Molhei os pés no mar de Ipanema
e por segundos me senti sorvete,
até voltar ao sol que incendeia,
a onda vai e eu sumo na areia.

Percorro os passos da praia do tempo
e, tão distante, tento recordar
a voz do mar, a luz do céu nas águas
do entardecer da Pedra do Arpoador.

Andava livre, descalço, sem medo,
e ao mesmo tempo via o Rio e o mal:
de um lado as ondas vêm e vão, e eu sonho,
do outro, aquela selva é tão real...

Todas as cores do mar são castelos
que a areia insiste em me lembrar,
enquanto as pedras, implacáveis, dizem
que só em sonhos posso ver o mar.

Valsa do poente




Luzes desse mar do fim do entardecer,
o fogo assim desenha a noite que vai ser
o manto negro azul, distante, e as sombras vêm
descolorir além, nuvens encastelar.

E o Autor brande o pincel,
empunha a cor do céu, rascunha o esplendor
e rasga, qual punhal, recortes de cetim,
rajadas de amor, e vem fazer de mim

grão de areia, encantado, coração calado de tanto prazer
sem merecer a paz que tenta me envolver,
e nas brumas do tempo nem sei mais sonhar.

Sei que não vou despertar, meus olhos negam crer,
Meu coração contempla o gosto de entrever
As mãos do Deus Criador fazendo anoitecer.


(do livro Do mar e do poente)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cume do monte




Quem alcançou o cume desse monte
não olha mais o seu árduo caminho,
mas logo vê a linha do horizonte,
contempla o passo rumo ao infinito.

Um brado ao vento, ou lágrima contida,
são poucos gestos, palavras sem voz
que se derramam nesse fim de tarde
em que o silêncio é terno companheiro.

E enquanto acende a chama da fogueira,
acende o lume das lembranças tantas
que o coração insiste em recordar.

Quem alcançou o cume desse monte
toma e tece a linha do horizonte,
faz sua tela à sombra do luar.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ainda há um preço a pagar?




Há uma vida nova a ser vivida. Não só provada, experimentada, mas vivida em plenitude.
Quando Jesus nos diz que veio para nos dar vida, e vida em abundância, Ele não exclui nenhum dos filhos de Deus. Lembra que do interior de quem nEle crê fluirão rios de água viva? Creia apenas, e os rios fluirão; busque ao Senhor, e a sua alma viverá.
Nada pode nos separar do Seu grande amor. Ele deseja que andemos nEle, como ramos unidos à videira, que dão muito fruto.
Há ainda uma cruz: cada um de nós, se quer ir após Cristo, deve dia a dia negar a si mesmo, tomar a própria cruz e segui-lo. O escritor de Hebreus diz que ainda resta um sacrifício, o sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que confessam o Seu nome.
Viver a nova vida em Cristo implica renúncia, entrega, domínio próprio, zelo, cuidado, fidelidade, obediência, fé, amor, esperança, e mais uma série de atitudes cristãs. Porém, na palavra de Deus nada encontraremos a respeito de um preço ainda a pagar.
O sacrifício na cruz significa que o escrito de dívida que havia contra nós foi completamente riscado, anulado, totalmente pago. Não houve desconto nenhum, nem barganha, nem negociação, porque o preço foi pago por Deus a Ele mesmo – e nisto o homem só veio a tomar parte como o beneficiário do Seu perdão pela graça.
Jesus nos disse que ainda há uma cruz, mas o nosso fardo é leve, e o Seu jugo é suave. Onde estaria, então, o preço a pagar? Não foi o sangue de Jesus que pagou todo o preço? Se o homem não foi nem nunca será capaz de providenciar a própria salvação, como poderá ainda pagar um preço que está além do sangue do Cordeiro? Só pode haver uma explicação que não manche com o nome de heresia o esforço e a boa vontade de irmãos consagrados ao Senhor: é que o que hoje a igreja gosta de chamar de preço a pagar definitivamente não é preço para Deus.
Preço para Deus é o sangue de Cristo. Qualquer tentativa de alcançar o que o preço pago na cruz significa para Deus será em vão. Sabemos, sim, qual foi o preço pago pelos nossos pecados lá na cruz, mas só Quem o recebeu realmente conhece o valor do sangue derramado, que não cabe em nenhuma medida humana – nem o valor do sangue, nem o tamanho da paz em Deus, nem a infinitude do Seu amor, pois cada uma destas bênçãos excede o nosso entendimento.
O que o homem chama de preço não é preço para Deus. Mas podemos ir além: por que, hoje, a igreja chama de preço a pagar o que é devido ao Senhor pelos Seus filhos redimidos na cruz?
Fomos salvos na cruz, e o preço foi totalmente pago. Ele ressuscitou para nos dar vida nEle. Temos o Seu perdão, ele caminha conosco e não nos deixará. Somos transformados de glória em glória. Morremos para o pecado e vivemos para Cristo Jesus, não para nós mesmos. Ele nos dá paz não como o mundo dá, vida em abundância, nos livra de todas as tribulações, nos conduz em triunfo, somos guiados pelo Seu Espírito e podemos nos assentar em lugares celestiais.
Seria isto tudo mera fantasia? Não, claro que não, porque verdadeiramente nos gloriamos em Deus. Sabemos que a Sua graça nos basta e que o Seu poder se aperfeiçoa na nossa fraqueza. Conhecemos e cremos no amor que Ele tem por nós. Então, se assim é, onde está o preço? Ainda resta um preço a pagar?
Se olharmos do ponto de vista do céu, não há mais preço algum. Está consumado, e foi selado por Deus. Mas, do ponto de vista do homem, ainda que este creia, fazer a vontade de Deus em entrega e submissão completa precisa ser chamado de preço e sacrifício – porque o apego à carne e ao mundo ainda é tão forte que o homem não consegue negar que precisa se esforçar, e muito, para se render a Ele.
Do ponto de vista do homem, primeiro vem o esforço, o preço, o sacrifício – e então pela fé somos aceitos por Deus. Mas para Deus, segundo a Sua palavra, parece ser bem diferente: pela graça somos salvos, mediante a fé, que é dom de Deus, e a fé é dirigida a Cristo como nosso suficiente Deus, Senhor e Salvador.
Onde está o preço, a não ser na cruz? Resta algum sacrifício remidor, ou justificador do homem diante de Deus, além do sacrifício na cruz?
Chamar de preço a nova vida em Cristo sugere que Deus se satisfez com o sangue de Cristo na cruz, mas o homem não. Deus, o Salvador, não precisa de mais nada para nos declarar salvos, mas o homem que ainda crê no preço a pagar exige de si mesmo atos de justiça além do ato soberano e divino da salvação na cruz.
Mas a Sua palavra nos ensina que os nossos atos de justiça são para Ele como trapos de imundícia. E o serão sempre. Não há homem que possa agradar a Deus com a sua própria justiça. Não há preço humano que possa agregar valor ao sangue da cruz.
Há uma vida nova a ser vivida. Não só provada, experimentada, mas vivida em plenitude.

Ainda há um preço a pagar?