terça-feira, 19 de outubro de 2010

O direito de nascer



Em comunidades evangélicas do orkut foi apresentado para discussão o tema do aborto. Foi ressaltada a necessidade da prevalência do que diz a Bíblia como palavra de Deus, em defesa da vida, sem se considerar ou se aprofundar em questões clínicas ou médicas, já que o ambiente de discussão é rápido, informal e leigo.
Entre outros motivos possíveis para o aborto, questionou-se a necessidade de praticar o aborto nos casos de estupro ou malformação congênita grave. Nossa legislação protege os direitos do nascituro – aquele que está no ventre da mãe sendo gerado. O recente destaque na mídia da cena em que os dedinhos de um feto, sendo operado, seguram os dedos do médico, é em si só uma evidência de interação com o meio ao qual cientificamente o nascituro não tinha ainda acesso. Assim, não parece que é à legislação que cabe determinar se um organismo vivo deve viver ou não. Se ele comprovadamente vive, sejam quais forem as condições de saúde, negar-lhe o direito a nascer – completar o ciclo da gestação e no tempo devido vir à luz – significaria simplesmente matá-lo.
Em favor do aborto, erguem-se vozes – notadamente as vozes das mães que rejeitam esta condição – indicando a vida e a saúde da gestante como valor a ser defendido em primeiro lugar, chegando a tomar como inquestionável o seu direito de decidir o que fazer com o seu corpo, mesmo que isto signifique dispor de uma vida à qual ela mesma, quase-mãe, propiciou a chance de vida.
Como cada caso é um caso, e estamos discutindo vida, não devemos contar só com nossa opinião ou com um ou outro entendimento que tivermos da própria palavra de Deus, porque senão estaremos dizendo que contamos apenas com nosso entendimento cristão, e que é possível que o Senhor esteja alheio a uma situação tão grave. Não se pode determinar que uma vida seja ceifada só porque em um dado momento não atendeu à expectativa humana de vida como o mundo compreende.
Pelo contrário: ou aceitamos como verdade, sem questionar, o que diz o Salmo 139 - que o Senhor conhece a nossa substância ainda informe -, e que Ele é que detém o poder e a soberania para determinar o que deve ou não deve acontecer em cada vida, ou escolhemos o caminho do mundo, que na maior parte dos casos considera apenas o custo-benefício das coisas (isto afirmo quanto aos casos de malformação congênita).
Quanto a casos de aborto por causa de estupro, prefiro contar, bem resumidamente, uma história verídica, mas não me lembro agora do nome. Sei do testemunho sobre um pastor, homem de Deus, que foi gerado desta maneira, e que foi usado pelo Senhor para conduzir muitos aos pés de Jesus.
Em todos os casos, não somos juízes, somos instrumentos de Deus e passíveis de simplesmente não saber o que fazer. Mas Deus sempre sabe, e caberá sempre a Deus ordenar as circunstâncias.
Ele é o Senhor, e estará sempre no comando de tudo que acontece e pode acontecer neste mundo, porque Ele olha, e vê, e conhece a vida, os intentos, o coração e a angústia de cada coração.
Ele não se alegra com a morte de ninguém, nem com a morte dos nascituros que não viram ainda a luz mas já têm o direito de conhecê-la. E preciosa é para Ele a morte dos Seus santos – porque a estes chamados de santos de Deus foi dado o direito à vida que tentam negar a quem o próprio Deus faz viver.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Contentamento




Conheci saudade
Onde já não mais via
Nada que riscasse
Tudo que restou,
E a página virei,
Não quero mais de mim
Temor ou ansiedade.
A paz precisa ser
Mais do que conquistei,
E então vou perceber,
No fim de mais um dia,
Toda a alegria,
O gosto do amor.

sábado, 2 de outubro de 2010

Tempo de silêncio

Olá, gente que me escuta nestas linhas.
São 4 meses de silêncio neste blog, um silêncio bastante pensativo, entregue a atividades essenciais de recuperação da saúde, em vista da cirurgia, e um silêncio bastante criativo, pois vão mudando as visões do ontem e do hoje.
Aguardem novos textos, e também músicas. Logo logo a gente se lê.
Abraços.

sábado, 15 de maio de 2010

Pra sempre

Pelo vale profundo eu sei que vou passar,
mas a tua palavra me ensina a Te esperar.
Tua luz vai além das trevas e da dor,
e entre as lágrimas creio e percebo o teu amor.

Senhor, eu sei que me vês
tão pequeno, tão frágil. tão só,
um grão de areia que é só teu...
Perdido nessa aflição,
diante do teu olhar,
me basta te pertencer pra sempre,
pra sempre, Jesus,
pra sempre,
Jesus.

Segundo eterno




Quem pode acrescentar um segundo à sua vida?
O que é a minha vida diante de Deus? Como um sopro ela vem, como um sopro ela vai... Minha vida é como a erva, que nasce, floresce e cai. Minha vida é como o vento, o mundo não me dá paz. Mas sei da promessa eterna da fé em um Salvador: quem crê em Jesus tem vida, e é salvo pelo amor.
A eternidade está dentro do meu coração. Não que eu a possa conter, ou reter; mas ela é antes de mim e é depois de mim. Eu devo desistir de ser começo ou fim de qualquer coisa... E ser apenas, singela e humildemente, o meio. Um meio pelo qual o Eterno pode realizar Seus feitos, e totalmente entregue às Suas mãos.
Altura e profundidade, sombra ou luz não são parâmetros de medida da eternidade. Possui parâmetros de comparação aquilo que se pode comparar a alguma outra coisa. Não, este não é o caso de Deus. Nada se compara ao Eterno.
O Senhor soberano estará lá, presente e terno, no último, eterno segundo do meu tempo, pronto para inaugurar o tempo sem limite da verdadeira vida nEle. Do que mais, então, preciso eu agora, se o que espero lá fora já me é certeza plena? Por quantas coisas corro sem qualquer sentido, se já conheço a paz do momento do adeus? É Deus quem me conduz, me espera e me recebe, para só nEle ter a vida, eterna vida, para nEle viver, segura e serena, e enfim conhecer a glória do meu Deus.

Teólogo não...


Teólogo não cheira, discerne fragrâncias.

Teólogo não toca, é tocado (em diversos sentidos...)

Teólogo não respira, transpira doutrina.

Teólogo não tem depressão, tem opressão mesmo.

Teólogo não só admira a natureza, mas descreve a Criação.

Teólogo não elogia, mas louva e glorifica (a Deus).

Teólogo não tem reflexos, tem sonhos e visões.

Teólogo não facilita discussões, promove a comunhão.

Teólogo não admite algo sem resposta: diz que é bíblico.

Teólogo não fala: prega e evangeliza.

Teólogo não pensa: medita.

Teólogo não toma susto: se escandaliza.

Teólogo não chora, se derrama.

Teólogo não espera retorno de chamadas, espera respostas de oração.

Teólogo não se apaixona, atende ao clamor da carne...

Teólogo não perde energia, renova as forças em Deus.

Teólogo não divide, multiplica os pães.

Teólogo não falece, sobe ao lar celestial.

Teólogo não beija, oscula.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Calçadão



Medo, saudade, silêncio. Quero escrever sobre meus sentimentos, mas não sei o que sinto agora. E será que algum dia eu o soube de verdade? Como podemos ter certeza do que perpassa a alma às vezes tão de relance?
Sentimentos nem sempre são certezas, aliás quase nunca o são. Muitas vezes são perguntas sem resposta, que gostamos de não ver respondidas, porque é a procura da resposta que nos move a continuar sentindo e vivendo.
Quando eu sinto medo, será que posso perceber a coragem que me move em direção ao impasse, ou minha memória sensitiva só consegue registrar a presença marcante do que me desafia?
Quando eu sinto saudade, será que percebo a súbita necessidade de organizar minhas lembranças, escolhendo, entre tantas, uma que me chama e comove, ou apenas sou movido de repente por um ímpeto emocional sem propósito aparente?
Eu sinto o silêncio, sim. Até em meio ao burburinho da rua, é possível sentir um silêncio que é de cada um, que marca o coração de quem se dá o direito de parar para apenas sentir o silêncio de um devaneio sem qualquer palavra, mas cheio de significados.
Não sinto medo neste instante, mas posso parar para observar em algumas pessoas, se tiver cuidado, o medo que elas sentem diante de variadas circunstâncias. Agora não estou experimentando uma saudade, mas posso imaginar que alguém que estanca, pensativo, pode estar se recordando de alguém muito querido, que não vê faz muito tempo. Se eu mesmo tiver tempo, posso me dar ao luxo de procurar quem esteja em seu momento de silêncio particular em sua alma sensível. Mas como, se este que vos divaga há pouco reconheceu que não consegue perceber o que sente?...
Somos muitos, tão diferentes e ao mesmo tempo sujeitos às mesmas mazelas, aos mesmos tropeços, ao calçadão fervilhando de gente que não se vê nem se fala nem se escuta, mas caminha, sente e ressente, interage, para e devaneia.
Dou licença pra moça passar por mais aquela esquina da vida, dela e minha, mesmo que nunca nos falemos. E será sempre a mesma vida, repartida entre nós que caminhamos tão perto e tão longe, tão atentos e tão egoístas, tão sensíveis quanto apressados, tão humanos quanto carentes.
Ser e sentir, eis o desafio das ruas. Medo, saudade, silêncio, fome, alegria, dor – alguém bem perto de mim sente, sente muito, se ressente e se vai, antes que a minha débil iniciativa resolva se mostrar, lenta, inútil e tardia.
E segue longe o passo do silêncio, e já vai longe o aceno da saudade, e já se foi o transe do medo, e permanece a multidão ausente, e perpetua a vida aparente de tanta gente que apenas vai...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Parece mas não é




Parece mas não é. Escutar não é ouvir. Ouvimos sons e vozes por aí, mas escutamos mesmo o que queremos escutar. É um ato de vontade livre: podem nos obrigar a ouvir, mas a escutar não podem.

O órgão próprio da audição agora se chama orelha, o que antes pouco considerávamos como invólucro anatômico funcional do que realmente importava: o ouvido. Talvez porque o dono do instrumento não seja mais ouvido, pode ser. E ao mesmo tempo que a funcionalidade da palavra perdeu o sentido, e o sentido da audição ficou restrito a uma simples orelha (ou duas), algumas coisas ouvimos de orelhada, e não se escuta mais se falar daquele que não é mais ouvido.

Antes que se perca o tom e o timbre desta amigável discussão particular, devo dizer que meu assunto não é propriamente este, mas por este é levado a tecer diversas outras reminiscências, sem que eu tenha sequer cogitado folhear algum alfarrábio de pesquisa científica, que a ela não dou ouvidos (ou orelhas, como quiser).

Pois é, parece mas não é. Aceitar não é escutar. Fala: então eu escuto. Mas isto não é, de modo algum, garantia de apreensão dos sentidos, dos significados aparentes e ocultos do que foi dito, cantado ou expresso de uma certa forma. Eu vejo a forma, eu conheço o conteúdo, e paro por aí. Aceitar está para o escutar assim como o dia a dia para a fotografia: enquanto alguém julga capturar um relance da realidade e a guarda como se fosse verdade, o segundo seguinte transforma o tudo em nada e o nada em tudo, mas o que fica, às vezes bobamente, eternizado é o instante em que parece que algo aconteceu – mas será verdade?

Não importa se é verdade, está registrado para sempre: mais vale o registro que a verdade. E quem se importa com ela? Eu tenho a prova do momento, e uns vão lutar para que ele pareça histórico, e outros vão dizê-lo fictício. Tá lá o corpo estendido no chão, tá lá a imagem marcada no filme, tá lá a pintura esboçada na tela, ta lá na primeira página a matéria - e rigorosamente não aconteceu nada. E então o desconsiderado órgão do nosso corpo leva mais uma vez a culpa de ter ouvido o que eu não escutei, porque o que eu percebi na verdade eu não vi, o que era retrato virou fumaça e sai no jornal de amanhã como a imagem fiel do que nunca existiu.

E, ainda assim, parece mas não é. Aprender não é aceitar.

- Mas peraí, você está indo rápido demais, eu nem ouvi o que você disse!

- Ouvir você ouviu, mas parece que não escutou.

- O que você disse mesmo?

- Ah, agora você quer mesmo escutar. E eu já estou no aceitar, sem que você sequer tenha percebido minha oferta.

Vamos voltar atrás. Escuta, você pode voltar ao começo do texto. Eu espero você percorrer todas as linhas, não tenho pressa. Porque, para escutar, aceitar e aprender não existe hora marcada nem manual de conduta, ou regras de etiqueta.

A gente vai ouvindo, escutando, aceitando, vivendo e aprendendo.

Alguém escutou o que eu disse?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Começar de novo




Um feliz 2010. Alguém poderia descrever o que isto quer dizer?
Enumerar esperanças, expectativas, certezas, aflições, são atitudes que se repetem no fim de cada ano, como se tudo, tudo mesmo, pudesse começar de novo. Mas não pode. Nem tudo pode recomeçar.
Confesso que não fico tão entusiasmado só porque vamos virar a folhinha. Viramos a folhinha, mas nem sempre viramos a página. A mesma vida continua, como se fosse 2005, 2006... porque eu vejo que quase nada mudou, só a data ficou nova. E esta é a motivação de muita gente.
Muitas coisas podem não mudar, mas algumas coisas crescem ao sabor dos anos. Especialmente as sementes que semeamos. Há quem semeie amargura – e uma raiz de amargura, se não for detida, pode se transformar em uma árvore frondosa, que só poderá oferecer frutos amargos. Há quem semeie alegria, na certeza de que será colhida a alegria – se não pelo semeador, por quem foi abençoado por aquela semeadura. Há quem semeie esperança, e sempre vai semear. E há quem semeie sem conhecer suas sementes, porque apenas semeia enquanto vive: esta pessoa é semeadora de vida.
Para quem me julga, apressadamente, acabrunhado, taciturno ou macambúzio (belas palavras antigas...), guardo para o final a razão que vai além de todo o tempo: nem tudo pode recomeçar, mas eu posso começar de novo. Você pode começar de novo. Nós podemos recomeçar. O quê? O que você quiser, quando você quiser. Não precisa ser no primeiro dia do ano – mas certamente vai ser o primeiro dia da mudança. Não precisa ser logo cedo; depois de uma boa refeição, você pode ter novas idéias, uma nova disposição, um novo olhar para coisas velhas, um generoso olhar para coisas difíceis, um olhar de paz para situações insolúveis – que não mudaram, nem vão mudar, ano após ano.
Mas eu posso mudar. E, se for preciso, posso mudar de novo. E de novo. E em outra direção, em outro sentido. Eu posso. Eu posso mudar hoje – mesmo que hoje não seja o primeiro dia do ano novo. E o melhor nisso tudo é que eu sou livre para escolher a mudança, livre para mudar, sempre que eu quiser. Porque, se eu quiser mudar, uma parte enorme do percurso já vai ter sido percorrida: só a vontade de mudar já me põe no meio do caminho.
Amanhã é dia 1º de janeiro, mas eu não vou lhe desejar apenas um feliz 2010. Eu desejo que você possa ver que todo dia é dia de recomeçar, que cada dia de 2010 é dia de ter idéias novas, que cada instante da vida é suficiente para rever conceitos, reformular planos, oferecer novas chances, principalmente a você mesmo.
E que assim você possa construir, ajudado pelas mãos que você vê ao seu lado, e você se lembra delas, e elas de você. Porém, se você só vê ou lembra as próprias mãos, então comece por procurar mãos alheias, para também serem suas.
Comece de novo, mas não comece sozinho.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

É Natal em mim




Eu nasci de novo: um dia
Eu olhei a cruz vazia
E de repente entendi
Que aquela cruz era minha,
A culpa, o pecado, tudo,
Mas não fui eu que morri.

Ele se entregou por mim,
De uma vez pagou o preço
E nada mais é preciso.
Livrou-me do meu pecado,
Me deu vida para sempre,
Garantiu a minha paz,
Resgatou o meu sorriso,
Nas trevas me trouxe luz
O Filho de Deus, Jesus.

..........................

É Natal em mim
desde o dia em que eu conheci
a Cristo Jesus,
meu Senhor, meu Salvador.
Ele me chamou
e eu disse sim à Sua voz,
e vou andar com Ele
aonde Ele for.

Sei que não é fácil segui-lo, eu sei
Os espinhos sempre terei,
Mas seja qual for o temor,
O tamanho, o gosto da dor,
Sempre saberei que é Natal em mim.

É Natal em mim
desde o dia em que eu conheci
a Cristo Jesus,
meu Senhor, meu Salvador.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Natal não vai passar




O Natal não vai passar, não vamos esquecer
Cada gesto, cada olhar, o dar e o receber
A esperança, a doce paz, o amor que faz viver.
Cada dia, cada instante é Natal.

Todo dia é Natal quando se tem Jesus.
Seu amor é tão real que eu posso provar
Paz em meio ao temor, alívio na dor,
Alegria e amor que vem de Deus.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Música e a criança

Deus criou todas as coisas para o louvor da Sua glória. A música foi criada por Deus. Antes da fundação do mundo, os anjos o louvavam; no nascimento de Jesus, anjos cantaram glória a Deus nas alturas. Somos criaturas de Deus para glorificar o seu nome.
A música pode trazer paz e alegria a um coração aflito. Músicas bem preparadas podem transmitir ânimo aos desanimados, alívio aos cansados.
Crianças que ainda não compreendem muito as coisas são sensíveis à música como um agente que mexe com sua atenção e emoções. Podemos nos lembrar mais facilmente de uma música aprendida na infância do que de palavras ditas em meio a uma pregação. Músicas aprendidas pela criança a ajudam a formar uma memória emocional com boas lembranças de sensações agradáveis. Se considerarmos, então, a música como agente espiritual, teremos a certeza da ação do Espírito Santo em meio às canções ouvidas e aprendidas.
Muitas coisas que são semeadas na vida de uma criança só mostrarão seus frutos bem mais adiante. E quando a pessoa, anos mais tarde, quiser trazer à memória o que lhe pode dar esperança, poderá encontrar, entre suas lembranças, as músicas tão simples e verdadeiras que falaram ao seu coração de criança.

sábado, 21 de novembro de 2009

Sete flores



Floral

Cada pétala espera
O silêncio amanhecer.
Gota de orvalho, me diz:
Onde está meu bem-querer?





Noturna

A flor da noite me disse
Que a gota de orvalho vem,
Que o luar não adormece,
E a noite vela também.




Volta

A flor que o vento leva
Vai tão longe do jardim...
As ondas do tempo trazem
A flor de volta pra mim.





Silêncio

Eu vi no fundo do tempo
A flor que o vento buscou.
A noite guarda o silêncio,
Meu coração guarda a flor.





Outono

Folhas do meu outono
Têm gosto de solidão,
Têm um quê de abandono,
Amor deixado no chão.




Jardins

Andei por tantos jardins,
Veredas de tantas cores,
Que já não sei mais a cor
Da rosa dos meus amores.





Desenho

Eu desenhei o teu nome
Como se ele fosse a flor
Que nasceu só no caminho
Onde passou o meu amor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A igreja tem que morrer

“E ele morreu por todos, para que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressurgiu” (1 Coríntios 5:15).

A palavra de Deus nos exorta a discernir o corpo (1 Cor. 11:29). A igreja é o corpo de Cristo. É preciso que ela saiba discernir a si mesma como corpo de Cristo.
Como o apóstolo Paulo nos exorta, devemos pregar a Cristo, e este crucificado (Romanos 1:23). O intento do apóstolo não é nos estimular a uma repetição do sacrifício consumado, pois Cristo morreu uma vez só, levando sobre si os nossos pecados. Mas ele enfatiza a obra da cruz como o centro da pregação do Evangelho.
Paulo fez várias afirmações em suas epístolas a respeito da operação da morte e da vida: “estou crucificado com Cristo; já não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim, e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus” (Gal. 2:20); “de sorte que em nós opera a morte, mas, em vós, a vida” (2 Cor. 4;12); “dia após dia morro” (1 Cor. 15:31). Será isto exclusividade do apóstolo Paulo? Não foi ele usado por Deus para despertar a igreja para morrer para o mundo?
Lutamos contra a carne, contra o nosso inimigo e contra o mundo. Como cristãos, reconhecemos a necessidade de um viver santo – separado para Deus – e não voltado para as coisas deste mundo, pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2:15), e “a amizade do mundo é inimizade com Deus” (Tiago 4:4). Conseguimos enxergar isto no plano pessoal, individual – mas isto, infelizmente, não acontece com a igreja.
Cristo Jesus disse que, quando Ele fosse levantado, iria atrair todos a si mesmo (João 12:32). Na cruz, sim, mas não após a Sua morte, mas quando fosse levantado no madeiro – pronto para morrer e consumar a redenção. Seu sacrifício redentor se deu na plenitude dos tempos, no tempo exato do plano de Deus.
A palavra de Deus é cristocêntrica – aponta para a promessa, para a vinda e para o sacrifício e a ressurreição de Jesus, e anuncia a Sua volta. Sabemos que tudo convergiu para Cristo na cruz – e hoje a Sua morte continua sendo tanto o ponto final da condenação pelo pecado como o ponto de partida para a vida nova em Deus. O corpo de Cristo foi crucificado para que Ele levasse sobre si o pecado, morrendo em lugar dos pecadores. Paulo olha para a cruz e diz que precisa se conformar com a Sua morte, para de algum modo alcançar a ressurreição (Fil. 3:10, 11).Seria isto uma atitude mórbida da parte dele – procurar conhecer o poder da morte – ou um perfeito discernimento do corpo de Cristo?

Hoje celebramos a salvação e ouvimos alguns dizerem que devemos olhar para a cruz não como uma morte, mas como a nossa esperança. Mas não podemos fazer isto, pelo menos por dois motivos: o mais evidente é que a cruz é o lugar da morte sim, porque não há como olhar para a cruz e não se lembrar da morte de Cristo, mas Ele ressuscitou, e nos alegramos com a Sua ressurreição ao lembrar que a cruz está vazia, e que Ele não permaneceu na morte. O outro motivo é que a cruz não pode ser a nossa esperança porque ela é o sinal da própria concretização da esperança – a promessa se cumpriu: o Salvador veio, morreu na cruz, e está consumado.
A igreja não deixa de olhar para a cruz, mas não vê nela o que precisa ver. Olhamos para o sacrifício de Jesus como sofrido em nosso lugar: o preço foi pago e nada mais há a fazer para a salvação – e isto é verdade. Mas a cruz de Cristo não é só dele, é nossa também. “Fomos sepultados na sua morte pelo batismo” (Rom. 6:4) - o que simboliza o nosso comprometimento com o morrer para o mundo e viver para Cristo, como um novo homem.
Muitos de nós podem ver a si mesmos como crucificados com Cristo, reconhecendo que é necessário e urgente passar pela cruz para se conformar com a Sua morte, Para ressuscitarmos com Cristo, precisamos morrer, e morrer para o mundo. No entanto, enquanto alguns conseguem contemplar a cruz de Cristo como lugar da sua própria morte, atraídos por Cristo Jesus à Sua cruz, a igreja olha para a cruz e não consegue discernir na cruz a si mesma como o corpo de Cristo que morreu – porque, como foi Cristo quem morreu, e isto é suficiente, a igreja não precisa mais morrer. Mas isto é loucura na pregação, e não a loucura da pregação que salva. Podemos ver hoje a igreja como é descrita em Efésios 1:23?
Hoje corremos o risco de celebrar a ressurreição de um corpo – a igreja – que não morreu. A igreja diz ter vida em Cristo, mas ama as coisas deste mundo. Ou será que morrer para o mundo e viver em Cristo é privilégio de alguns? Fomos chamados para fora para ainda escolhermos se vamos viver em Cristo ou não? A igreja hoje proclama e promete o céu, mas retém o seu tesouro e o seu coração no mundo.
É urgente que a igreja olhe para a cruz e veja a si mesma crucificada com Cristo. Que ressurreição a igreja pode querer provar, se não reconhece a si mesma como morta para o pecado?
Fala-se muito nestes tempos de unidade na diversidade, unidade nas realizações, unidade no propósito comum de propagar o Evangelho. Há vários tipos de unidade sendo propostos à igreja e pelas igrejas hoje – afinal, é preciso que sejamos um para que o mundo creia (João 17:21). A igreja também reconhece que precisamos ser um em Cristo - e então isto parece suficiente, mas não é.
Nenhum destes planos aponta para a unidade da igreja na cruz. Jesus nos atraiu a Si mesmo como igreja que somos, como um só corpo, crucificado com Cristo, que precisa morrer para este mundo, deixar de viver para si mesma e viver em unidade para Aquele que por ela morreu e ressuscitou.
“Igreja, nega-te a ti mesma, toma a tua cruz e segue-me”. Somos capazes de negarmos a nós mesmos, tomarmos nossa cruz e seguirmos a Jesus individualmente, mas é difícil não ver que a igreja não se une para seguir a Cristo, está longe de conhecer a sua cruz e cada vez mais reafirma a si mesma como instituição que anda e vive neste mundo como se fosse dele. Está solidamente arraigada no mundo, e dele recebe a seiva para produzir frutos que chamem a atenção de todos para si mesma, e não para Deus.
O Israel de Deus tornou-se a vide luxuriante que segue sem pudor os seus amantes. Mamom é apenas um deles. Cada um de seus ramos constrói palácios – alguns são de luxo, outros de conhecimento, outros de poder – mas a glória não é de Deus: a glória é dada ao homem na pessoa da igreja.
Será ainda preciso chamar isso de prostituição? Porventura foi Cristo Jesus crucificado para que tivéssemos glória como Sua igreja? Há algo muito sério fora do lugar. Não consigo ver a igreja como participante da glória de Cristo, como se nela mesma houvesse glória, a não ser por dois motivos: os salvos terão corpos revestidos de glória, o que é mortal se revestirá da imortalidade e a igreja será o corpo de Cristo glorificado nos céus. O outro motivo é que já somos, e seremos tão pequenos diante da Sua glória, que dela participaremos como um salvo e bem-aventurado nada.
Se a vida da igreja está em Cristo Jesus, ela precisa passar pela cruz. Se a vida da igreja está em Cristo, é preciso que ela ande nele. A esperança da igreja é que somos semeados em fraqueza, mas ressuscitaremos em poder (1 Cor. 15:43).
A igreja não será vivificada se primeiro não morrer (1 Cor. 15:36). O grão morre como grão, e só terá novo corpo quando, após semeado, nascer de novo (1 Cor. 15:37). Ou a igreja morre para si mesma e para o pecado, e assume o seu lugar na cruz como corpo de Cristo, ou estará longe de se conformar com os Seus sofrimentos – o que não foi entregue somente a Paulo, mas a toda a igreja. Se alguém quer ter vida em Cristo, é preciso passar pela Sua morte – e a igreja não pode fugir disto.
Será que é somente a missionários que cabe como lema “Para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”? No reino de Deus, a ordem das coisas é muito peculiar. Neste mundo é preciso estar vivo para se poder morrer, mas para nós, que não somos deste mundo, é preciso morrer para se ter vida.
Enquanto a igreja julgar que tem vida em si mesma, e se considerar a detentora – e não a servidora – dos propósitos de Cristo, continuará enganando a si mesma, servindo ao mundo e ensinando que a cruz é apenas um bonito símbolo da nossa fé.
Se a igreja achar a sua vida perdê-la-á; se a igreja perder a sua vida por causa de Jesus Cristo, achá-la-á. Encontrará a verdadeira vida em Cristo, e por fim a vida eterna.

(do livro 'Penso, logo escrevo', de crônicas evangélicas)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Coração de criança




Quando o coração é de criança,
toda roda viva é carrossel,
todo carrossel é colorido,
toda cor tem vida, tom, sentido.

Não importa o que eu quis dizer,
mas o que teu coração sentiu
ao mirar o esboço desta tela
que eu insisti em colorir.

Cada traço vai tocar mais fundo
a alma de quem procura e sonha
um lugar de paz, onde descansa:

toda cor tem vida, tom, sentido,
todo carrossel é colorido,
quando o coração é de criança.

Imagem: Casa nordestina, da Fundação Gol de Letra)

Uma profissão




Oh, queridos mestres, nem sempre o sentido das palavras consegue expressar as palavras dos sentidos, o que pulsa sem falar mas expressa mais que tudo que se quer dizer.
E, quando expressa, professa, claramente, e com veemência, o que é profundo e emerge, solene e incontida, como uma mensagem tão serena e tão marcante.
É preciso aprender a aprender. Um fala, o outro escuta, ambos pensam e interagem, num processo além do conhecimento que deságua na comunhão do que é compartilhado. E, ao compartilhar palavras e atitudes, não importa mais quem é o professor – ambos professam a comunhão do novo. Aprendendo a aprender, aprendem a ensinar um ao outro, e a declarar sem palavras que a semente da comunhão germinou e vai produzir seu fruto. Professor não apenas ensina, mas traz com ele aqueles que professam o que conheceram juntos.
Dizem que um profeta prediz o futuro – ele professa o que há de vir. Mas, se aquele que profetiza é aquele que exorta, consola e edifica, como está escrito em 1 Coríntios 14:3, é difícil imaginar alguém que exorta sem partilhar o dia a dia; alguém que consola sem se aproximar e conviver com o aflito; alguém que edifica sem tocar com as mãos o que é edificado.
E assim percebemos que profetizar não é apenas predizer, mas construir o futuro. Construir um futuro com as mãos cheias de trabalho, rodeado de gente que professa – declara publicamente o seu compromisso – o desejo de ajudar a construir um futuro que não é só de um, mas de todos.
Professor, profissão: profeta.

sábado, 3 de outubro de 2009

Por que temes?



Tela: Night - after Millet, de Van Gogh


Por que temes o mal? Ele é inevitável.
Desprezas o bem que bate á tua porta,
Espantas o amor que, paciente, espera
Que então atendas a uma só palavra.

Por que temes o bem? Achas insustentável
Que a paz não te deixe nem por um momento?
Amas a tua dor, desejas sofrimento,
Buscas o tormento e assim te julgas bom.

Não temes o flagelo das horas perdidas,
Todas as mentiras que animam teu medo.
Guardas teus segredos como vãos tesouros,
Escórias do ouro, tolo proceder.
Quem és tu que temes a própria verdade,
Expulsa dos teus dias tão em esperança?
Quem te fez escravo desta insanidade,
Qual merecedor dos males deste mundo?

Não será a dor o que te justifica,
Não será o medo o que tanto te humilha,
Nem a solidão a razão do teu pranto,
Nem obsessão a tua armadilha.
Tu mesmo armaste a rede aos teus passos,
Pássaro cruel que mutilou tuas asas
Para não poderes voar até os montes
De onde se vislumbra tão de perto o céu.

O céu que rejeitas jamais te feriu,
E as nuvens que vês são para o teu deleite,
Mas em tua loucura não crês que te aceite
O Senhor que te criou e te deu vida.
Não contemples mais a tua vã ferida,
Recebe o bálsamo, está á tua mão.
Ele te estende a destra e o auxílio,
Com amor te chama, e com compaixão.

Temerás também Sua misericórdia?
Te esconderás na tua vaidade?
Ou enfim darás a chance à verdade
De te transformares de algoz em redimido?

Espero que não temas te veres perdido,
Porque, afinal, por Deus tu foste achado,
Fraco, desprezado, inútil, oprimido,
Um trapo de gente, alguém sem serventia.


Mas quem O conhece como Deus de amor
Enfim se percebe que nasce de novo,
Que não mais importa tudo que passou,
Que é envolvente a paz que te domina.
Temerás então deixar Sua palavra,
Te recolherás aos braços do Pastor,
E esquecerás que um dia foste nada,
E hoje és para sempre alvo do Seu amor.

domingo, 27 de setembro de 2009

Selva e mar – Rios de Janeiro




Molhei os pés no mar de Ipanema
e por segundos me senti sorvete,
até voltar ao sol que incendeia,
a onda vai e eu sumo na areia.

Percorro os passos da praia do tempo
e, tão distante, tento recordar
a voz do mar, a luz do céu nas águas
do entardecer da Pedra do Arpoador.

Andava livre, descalço, sem medo,
e ao mesmo tempo via o Rio e o mal:
de um lado as ondas vêm e vão, e eu sonho,
do outro, aquela selva é tão real...

Todas as cores do mar são castelos
que a areia insiste em me lembrar,
enquanto as pedras, implacáveis, dizem
que só em sonhos posso ver o mar.

Valsa do poente




Luzes desse mar do fim do entardecer,
o fogo assim desenha a noite que vai ser
o manto negro azul, distante, e as sombras vêm
descolorir além, nuvens encastelar.

E o Autor brande o pincel,
empunha a cor do céu, rascunha o esplendor
e rasga, qual punhal, recortes de cetim,
rajadas de amor, e vem fazer de mim

grão de areia, encantado, coração calado de tanto prazer
sem merecer a paz que tenta me envolver,
e nas brumas do tempo nem sei mais sonhar.

Sei que não vou despertar, meus olhos negam crer,
Meu coração contempla o gosto de entrever
As mãos do Deus Criador fazendo anoitecer.


(do livro Do mar e do poente)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cume do monte




Quem alcançou o cume desse monte
não olha mais o seu árduo caminho,
mas logo vê a linha do horizonte,
contempla o passo rumo ao infinito.

Um brado ao vento, ou lágrima contida,
são poucos gestos, palavras sem voz
que se derramam nesse fim de tarde
em que o silêncio é terno companheiro.

E enquanto acende a chama da fogueira,
acende o lume das lembranças tantas
que o coração insiste em recordar.

Quem alcançou o cume desse monte
toma e tece a linha do horizonte,
faz sua tela à sombra do luar.